domingo, junho 13, 2004

DEZ REIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

sexta-feira, junho 04, 2004

DESDE A PRIMEIRA MADRUGADA

Brincas por entre as brancas papoilas
Que sorriem a cada respirar.
Papoilas que são como as flores nos teus lábios
Ou como os jardins do teu florido olhar
Que me deixas ver e deslumbrar.
Jardins em que as cores não são três, mas milhões
Jardins onde só entram corações!

E a cada passo tão cuidadoso
Segues o trilho do teu destino
Que tão ingénua e inocentemente perdeste.
E como nos velhos tempos, mergulhando
No meu olhar que em ti se enleva
Perguntas-me, num cuidado de manhã
Se guardei todos os beijos que me deste.

E eu, como criança apaixonada
Torno-me estrela ao teu sabor e apenas digo:
« Todos, desde a primeira madrugada! »

David Serrano Sobral